Diário de Pernambuco
Domingo, 01 de Novembro de 2009:
O paraíso dos contrastes
Famosa pela beleza de suas praias, pelo luxo de seus resorts e pelos vultosos empreendimentos econômicos, Ipojuca sofre com miséria, degradação ambiental, falta de saneamento, desemprego, violência e crescimento desordenado
Andrea Pinheiro
andreapinheiro.pe@dabr.com.br
Todas as atenções estão voltadas para Ipojuca, Região Metropolitana do Recife, por abrigar os maiores investimentos recebidos por Pernambuco nos últimos anos, como a Refinaria Abreu e Lima e o Estaleiro Atlântico Sul, que fazem parte do Complexo Industrial de Suape.

O estoante litoral e as palafitas encravadas nos mangues; as duas faces do município. Foto: Teresa Maia/DP/D.A.Press
É também um dos principais destinos turísticos do estado, com praias como Porto de Galinhas e Serrambi, que atraem mais de 500 mil turistas anualmente. Esse momento positivo contrasta com a realidade vivida pelos moradores da cidade. O maior PIB (Produto Interno Bruto) per capita do estado ocupa o 44º lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento (IDH) entre os 184 municípios pernambucanos. As praias paradisíacas convivem com palafitas encravadas nos mangues e os negócios milionários destoam da tradicional cultura da cana-de-açúcar.
São desigualdades que causam estranheza quando se trata de um município com 75 mil habitantes e um orçamento estimado em cerca de R$ 440 milhões para 2010 (será readequado devido à redistribuição do ICMS) – neste ano, o orçamento é R$ 340 milhões. Ipojuca enfrenta problemas de grandes centros urbanos, como a migração em busca de emprego, o crescimento desordenado, a falta de saneamento, a degradação ambiental. E a miséria.
Quem frequenta Porto de Galinhas nos fins de semana e feriados talvez não imagine as condições de vida dos trabalhadores do turismo e do comércio, responsáveis por 10% da arrecadação municipal e 90% dos empregos do município. Maria José da Silva, mulher de um vendedor de amendoim, divide uma palafita com o marido, os seis filhos e a neta no bairro de Salinas, em Porto. Tem água e luz, mas falta saneamento. “Todos nós dependemos de biscate, a vida é dura. Quando chove, ficamos na lama e não temos dinheiro para conseguir uma casa melhor”, lamenta.
A miséria encontrada em Porto, vila ligada a Nossa Senhora do Ó, um dos três distritos do município, não é diferente em Camela ou na sede de Ipojuca. A desempregada Edinete Maria da Silva, 27anos, tem três filhos,morava em Nossa Senhora do Ó e mudou-se há oito meses para Camela. “Vivia numa invasão e soube que o prefeito iria dar casas para quem vivia em Camela. Também achei que poderia encontrar trabalho”. Ainda espera. Tanto pela casa como pelo emprego.
“O que acontece é que o poder público não enfrenta os problemas do município. As áreas urbanas afundam na superconcentração populacional, não há controle urbano, fiscalização, e o transporte não foi regulamentado, para citar alguns dos problemas. É muito descaso do governo”, critica Marcos Pereira, do movimento Xô Corrupção, de Ipojuca. Ele diz que o crescimento do município e a pobreza atraíram o tráfico de drogas. “Há comunidades já profundamente atingidas pelo crack e não há nenhum projeto para combater o crime e nem voltado para os jovens, maiores prejudicados pelo tráfico. Sem falar que houve um crescimento no número de homicídios”.
Segundo informações da Secretaria estadual de Defesa Social (SDS), em Ipojuca foram registrados sete vítimas de crime violento letal e intencional em outubro e 41 desde o início do ano. O número é proporcionalmente maior aos casos registrados na capital pernambucana (683 vítimas de janeiro a outubro), que tem 1,5 milhão de habitantes.
A reportagem tentou entrar em contato com o prefeito Pedro Serafim (PDT), sem sucesso. Na quarta-feira, esteve na sede da prefeitura e na casa do prefeito. Foi recebida por duas secretárias, uma delas Dilma Lacerda, e foi informada de que Serafim não se encontrava no município e nem estaria no dia seguinte. Os telefonemas não obtiveram retorno.
Raio-X da contradição
Receita total: R$ 236, 3 milhões (em 2007)
Previsão de orçamento para 2010: R$ R$ 440 milhões
Produto Interno Bruto (PIB) Municipal: R$ 4,3 bilhões (em 2006) – 3º do estado PIB per capita: R$ 61,9 mil (em 2006) – é o maior do estado
Participação no PIB de Pernambuco: 7,7% (em 2006)
Índice de Desenvolvimento Humano (IDH-M): 0,658 (44º no ranking de Pernambuco) – 7,8 mil famílias beneficiadas pelo programa Bolsa Família (agosto de 2009) 3% de área saneada
Taxa de analfabetismo: 32,2% (pessoas com 7 a 14 anos), 17,5% (10 a 14 anos), 11,2% (15 a 17 anos), 17% (18 a 24 anos) e 37% (mais de 25 anos) – em 2000
Média de anos de estudo: 3,66 (pessoas com mais de 25 anos) – em 2000 Dos 13.414 domicílios, 7.035 são ligados à rede geral de abastecimento d’água (em 2000)
Crescimento atrelado a problemas sociais
Complexo industrial de Suape deslanchou desenvolvimento econômico, mas poucos usufruem dos ganhos
Dependente da indústria canavieira por muitos anos, Ipojuca começou a mudar o perfil com o crescimento do turismo na região, mas o boom econômico do município só aconteceu mesmo com a consolidação do Complexo Industrial de Suape.

Engenho Água Fria, em Nossa Senhora do Ó: como não existe sistema de abastecimento d’água, população recorre ao Rio Arembi. Foto: Teresa Maia/DP/D.A.Press
Embora a área do complexo compreenda os municípios do Cabo de Santo Agostinho e de Ipojuca, a maior parte dos novos empreendimentos está sendo instalada na segunda cidade. “O Cabo tem muitas áreas de preservação ecológica, então, Ipojuca é beneficiada”, explica o diretor administrativo-financeiro Francisco Claudino.
A atração dos investimentos não tem nada a ver com incentivos fiscais, de acordo com o diretor, apesar de Ipojuca ter promovido uma redução de 5% para 2% do Imposto sobre Serviços (ISS) recolhido no município. Francisco revela que o complexo gera cerca de R$ 70 mil por mês em ISS para Ipojuca – a maior parte oriunda da construção civil, porque as empresas que prestam esse tipo de serviço devem ter a mão de obra tributada onde esta exerce a profissão.
Ipojuca também podearrecadar com o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), mas é pouco representativo para o município, porque a maior parte dos terrenos que recebem os investimentos no Complexo é de marinha. Restam, então, as outras áreas do município, como Porto de Galinhas. Os representantes do movimento Xô Corrupção informaram que a prefeitura isentou do imposto as áreas com preço de até R$ 100 mil.
“O maior benefício de Ipojuca é a arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) de combustível, porque a Petrobras está situada na cidade”, observa Francisco. O ICMS representa 70% da receita do município, de acordo com informações do presidente da Câmara de Vereadores, Odimeres José da Silva (PDT), mais conhecido como Nen Batatinha.
Assistencialismo impera nos engenhos
Um dos motores da economia de Ipojuca ainda é a tradicional indústria do açúcar. Existem 74 engenhos distribuídos nos 500 quilômetros quadrados de área do município.

Rosenílson: “Carro-pipa voltou porque o vereador não tinha autorizado”. Foto: Teresa Maia/DP/D.A.Press
Eles reúnem cerca de 30% da população local, que dependem quase exclusivamente da agricultura e dos programas de assistência social governamentais, como o Bolsa Família, para sobreviver. Os pequenos povoados localizados nos engenhos não têm água encanada – poucas casas contam com poços artesianos – e saneamento não existe.
É uma vida sofrida, dependente da lida no ciclo da cana-de-açúcar. Em época de plantio e de colheita, as condições melhoram um pouco. Na entressafra, no entanto, há muito sofrimento. “A gente, aqui, vive à mercê da sorte”, diz Elisabete Cândido da Silva, moradora do Engenho Caetés, em Nossa Senhora do Ó, há 26 anos. Ela conta que a Usina Salgado, também no município, parou de funcionar e interrompeu o pagamento dos salários. “Ninguém nos ajudou”.
A maior queixa dos moradores dos engenhos é relativa ao abastecimento d’água. “Oua gente usa a água do rio Arembi e de algumas cacimbas ou espera o carro-pipa da prefeitura, que passa às vezes”, diz o agricultor Alberto Silva, do engenho Água Fria, também em Nossa Senhora do Ó. De acordo a secretaria estadual de Recursos Hídricos, há um projeto prestes a entrar em licitação para a melhoria do sistema de abastecimento de água em Ipojuca-sede, com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Mas não há previsão de implementação da rede de abastecimento d’água nos engenhos.
Não bastassem os problemas do dia a dia, os moradores dos engenhos convivem com a “influência” dos políticos locais. Os povoados transformaram-se em redutos eleitorais e, muitas vezes, dependem da autorização de um dos dez vereadores da cidade para serem atendidos pelo poder público. O Engenho Caetés, por exemplo, é conhecido como reduto do vereador Carlos Monteiro (PMDB). “As coisas só podem vir aqui com ordem dele. Outro dia, um carro-pipa chegou para abastecer as casas, mas uma pessoa ligou para o vereadore ele disse que não tinha autorizado a vinda do caminhão. O motorista voltou e nós ficamos sem água”, lembra Rosenílson Belarmino da Silva, que trabalha na coleta de lixo. Carlos Monteiro nega. “Isso não tem fundamento. Deve ser coisa de quem não gosta de mim”.
Saúde está entre as principais queixas
Se as áreas que mais recebem atenção do governo de Ipojuca, como Suape e a vila Porto de Galinhas, sofrem com problemas de infraestrutura, de descontrole urbano e de desigualdade social, a situação se agrava nos distritos. As reivindicações mais frequentes dos moradores são melhorias na saúde e na educação, saneamento básico e pavimentação de ruas.

Esgoto a céu aberto: obra de saneamento foi paralisada em Porto de Galinhas. Há projeto em andamento em Nossa Senhora do Ó. Foto: Teresa Maia/DP/D.A.Press
“O que existe é um abandono total da prefeitura com o município. É como se fosse uma casa com muita gente e ninguém faz nada”, compara Carlos José da Silva, militar da reserva, morador de Nossa Senhora do Ó, também integrante do movimento Xô Corrupção.
Todos os entrevistados pela reportagem reclamaram do atendimento médico e da falta de um hospital que atenda as necessidades do município. “Além da falta de especialistas e da necessidade de se deslocar ao Recife, não nascem cidadãos ipojucanos, porque a maternidade está desativada há vários meses”, afirma Carlos. Circula, na cidade, um relato sobre o dia em que a mãe do vice-prefeito, José Eduardo Alves da Silva (PMN), se acidentou em Porto de Galinhas e não havia ambulância disponível para levá-la ao hospital, situado a poucos quilômetros de distância da residência dela.
“Realmente, demorou um pouco para o atendimento ser realizado porque, apesar de sermos a sede do Samu em Ipojuca, quem libera a ambulância é a central no Recife”, justificou a diretora do hospital Carozita Brito, Rejane de Oliveira. Esse é o principal centro médico do município e está instalado em Nossa Senhora do Ó. Rejane descarta a existência de graves problemas e garante que o atendimento nas 16 especialidades da unidade funcionam regularmente.
Na área de saneamento, Nossa Senhora do Ó está sendo beneficiada. Na semana passada, teve início a implantação do sistema de esgotamento sanitário do distrito. Orçada em R$ 11,9 milhões, a obra, realizada pelo governo do estado com recursos da Caixa Econômica Federal, consiste na construção de uma estação elevatória de esgotos, rede coletora e ligações domiciliares. A previsão de conclusão é junho de 2010. O saneamento de Porto de Galinhas, que seria feito com recursos da Funasa, foi paralisado em decorrência da Operação Navalha, da Polícia Federal. O prefeito Pedro Serafim (PDT) disse que assumiria a obra com verba municipal, mas o presidente da Câmara de Vereadores, Nen Batatinha (PDT), afirmou que isso não aconteceu.